quarta-feira, 22 de janeiro de 2020
Acordada.
Hoje o dia amanheceu chuvoso e escuro. Alguns dias mágicos amanhecem assim (quais dias não são mágicos?). Me deparei com uma declaração de amor ao acordar, encantou-me como se fosse para mim. Não era. Há muitos anos ninguém se declara para mim desta forma. Uma carta de amor é uma espécie de feitiço, hoje sei. Hoje sei o quanto eu, particularmente, sou vulnerável a este tipo de magia. Houve um tempo em que havia muitas cartas de amor, as paredes pareciam cobertas de palavras e cada mínimo detalhe, cada sulco na pele, cada folha caída se transformava numa infinidade de imagens e sentidos. Cartas de amor sugam o mundo pra dentro, como que abrem o peito para que vida entre inteira em beleza. O dia hoje amanheceu com o cheiro de uma carta de amor, como se tivesse aberto um portal ou um chacra que me transporta não em espaço ou tempo, mas em sentimento. Cada som (um vizinho mexendo na água, a buzina de um carro, alguém varrendo o chão) me encontra agora soando em minha pele e em meu peito, dissipa-se o véu entre mim e o mundo, é tudo um. Há um prazer indescritível em engolir o encantamento do mundo, sentir passar pela garganta, quente, e mantê-lo no estômago, mundificando dentro de mim. Fico, eu também, encantada. É deste lugar de onde saem as cartas de amor, daqui a vida é só beleza. Quem acordou essa parte de mim, como faço com que não durma?
domingo, 8 de dezembro de 2019
"Escrevam as suas canções"
Dia após dias após dia eu me pergunto "será que ela é feliz?". Tenho uma inveja profunda, mas não porque ela ficou com você. Invejo profundamente ela não ter passado pelo que passei. Pensar que o grande amor da sua vida (então eu achava que você era o grande amor da minha vida) prefere outra mulher é uma dor lancinante. Desde então outros amores escolheram outras mulheres, fico sempre de cá invejando essas mulheres e pensando como deve ser maravilhoso não pensar sobre a que foi escolhida. Tanta comparação e tanta ferida, as semanas passam como avalanches, mas todos os dias, todos os dias, todos os dias uma dessas mulheres me vem a cabeça e eu invejo. Como deve ser viver sem pensar na troca? Como deve ser viver sabendo-se escolhida para o amor? Como deve ser viver sob a luz da expressão "you're the one"? Será que esse rombo entre a garganta e o estômago deixa de existir?
Ainda posso acreditar no amor?
Ainda posso acreditar no amor?
quarta-feira, 23 de outubro de 2019
O pássaro do fogo pousado no peito
Tem essa faceta de mim que sou eu inteira e que vez em quando me encontra e me faz viver toda a potência de quem sou. Essa mesma parte, tão forte, tão fértil, tão frágil que se esconde e parece morrer toda vez que sou ferida, renasce como fênix vez ou outra e me lembra quão amorosa posso ser com o mundo, quão amorosa posso ser no mundo. É difícil manter esse brilho diante de tanta ferida, mas ele não é "pra que", como me fizeram e fazem pensar, ele é porque. Porque e por quê. É essa parte que quer se mostrar para o mundo, toda amor, toda doação, é essa parte que quer receber o mundo, todo amor e toda doação. É que um aplauso é nada mais que uma onda de conexão amorosa entre artista e platéia, do mais profundo para o mais profundo, indo e voltando, eterno. Como o som de uma cachoeira, como o canto do pássaro mais tímido, como uma flor que abre a terra em amor, essa parte minha é abertura. Pura e escancarada, vulnerável abertura. Mas uma fênix é tão vulnerável assim?
Não temos a arte para não morrer da realidade, Nietzsche. Temos a arte para amar a realidade.
Não temos a arte para não morrer da realidade, Nietzsche. Temos a arte para amar a realidade.
sábado, 5 de outubro de 2019
"Nossas vidas não são nossas."
Quando tudo parece perdido e já nada faz sentido, eis que me vem essa lembrança. A certeza de que cada vida muda outra vida e que o encadeamento de intersecções se segue por milhares de anos e nada vai parar. Quantos amores e desamores houveram para que eu possa hoje amar? Quantas vidas compuseram a minha vida e permanecerão compondo, quantas vidas eu também ajudarei a compor? Todo toque que houve em minha vida será levada para um outra vida e adiante por todo o tempo do mundo. Toda porta que abri, todo amor que amei se repetiu antes e repetirá até o fim dos tempos dentro da infinidade de cada segundo, tudo ao mesmo tempo. Viverei ainda amores que atravessam milênios, de almas que virão antes e vieram depois. Conhecerei ainda grandes amores já conhecidos de tantos dias antes, depois, durante. Meu coração ganha existência.
Obrigada por isso, mesmo que você não saiba que foi você que me deu.
Obrigada por isso, mesmo que você não saiba que foi você que me deu.
segunda-feira, 16 de setembro de 2019
Cloud Atlas
Para ler ouvindo "Pra sempre será" - O Terno
Eu amei. Eu me lembro que um dia eu amei. Parece fazer décadas desde então, mas eu lembro que foi um dia desses que eu amei. A mera presença dele fazia o mundo explodir num calor úmido que começava entre minhas pernas e aquecia oceanos e cachoeiras por todo o mundo, a sombra de qualquer árvore virava nuvem a qualquer nota da voz dele, o asfalto virava terra fértil de onde brotavam as mais exóticas flores a cada passo que ele dava. Quem era ele? Disso eu não me lembro mais. Não o nome, o sobrenome, essas frivolidades minha memória guardou. Mas quem era ele, este homem que eu amava? Quem foram esses tantos homens que amei, estrela cadente após estrela cadente, pedindo aos céus que ficassem? Que luz era mesmo aquela que eu via no fundo da alma deles que, como feitiço, encantava o meu mundo? Ai, um dia...um dia eu amei. Eu lembro da profunda emoção dos primeiros toques, da imensa euforia do primeiro “eu te amo”, dói saber que eu amei. Não sei se me restou por onde amar dessa forma tão profunda que faz o mundo se refazer, que transforma a Lua em atriz de musical, que aguça o olfato como que pelo estômago. Mas eu me lembro que um dia eu amei. Amei como quem se joga do penhasco com a certeza de que vai voar. E voei. Verdade seja dita, eu voei. O amor dá asas a cobra, mas depois tira.
Eu amei. Eu me lembro que um dia eu amei. Parece fazer décadas desde então, mas eu lembro que foi um dia desses que eu amei. A mera presença dele fazia o mundo explodir num calor úmido que começava entre minhas pernas e aquecia oceanos e cachoeiras por todo o mundo, a sombra de qualquer árvore virava nuvem a qualquer nota da voz dele, o asfalto virava terra fértil de onde brotavam as mais exóticas flores a cada passo que ele dava. Quem era ele? Disso eu não me lembro mais. Não o nome, o sobrenome, essas frivolidades minha memória guardou. Mas quem era ele, este homem que eu amava? Quem foram esses tantos homens que amei, estrela cadente após estrela cadente, pedindo aos céus que ficassem? Que luz era mesmo aquela que eu via no fundo da alma deles que, como feitiço, encantava o meu mundo? Ai, um dia...um dia eu amei. Eu lembro da profunda emoção dos primeiros toques, da imensa euforia do primeiro “eu te amo”, dói saber que eu amei. Não sei se me restou por onde amar dessa forma tão profunda que faz o mundo se refazer, que transforma a Lua em atriz de musical, que aguça o olfato como que pelo estômago. Mas eu me lembro que um dia eu amei. Amei como quem se joga do penhasco com a certeza de que vai voar. E voei. Verdade seja dita, eu voei. O amor dá asas a cobra, mas depois tira.
segunda-feira, 5 de agosto de 2019
"É preciso permitir que coisas lindas aconteçam"
Há um furacão que nasce num espaço entre-costelas e revira os sentidos, é choro e riso e uma emoção à flor da pele que não cessa. É quando toda dúvida inexiste, como se por alguns momentos fizesse estivesse no centro da força pura da criação que apenas sabe das inscrições de antes do berço. Como sentar para tomar um chá de destino com o Destino. -Certo, mas me explica aqui esse momento? -Ah, querida, há coisas que apenas precisam ser, pequenas poeiras de sina que geram grandes explosões, como um bater de asas de borboleta da vida humana. Me embriago de gratidão daquele jeito choroso de embriaguez, por estar viva, por amar, por sofrer, por poder mesmo sem saber que posso descortinar quem eu sou. Fazia um tempo que não batia sol aqui dentro e agora tudo se abre em beleza, como um caleidoscópio maior ainda do que eu. Quisera poder capturar a explosão de cores que encontrei nesse pedaço d'alma e que tomou minha vida repentinamente. Alma tem cor sim, Chico César, mas não uma só; a minha tem uma aquarela.
sexta-feira, 2 de agosto de 2019
Então é isso! (ou A Carne dos Deuses em minha cara)
Eu te vi lá, perfeito, moldado, forjado - na forja mais óbvia da divindade - para aquilo, exatamente para aquilo. Como ver uma cachoeira descendo ou o mar ondulando, aquilo que é e apenas é, porque assim tratou de ser. É de uma beleza estonteante ver alguém fazendo aquilo que nasceu pra fazer, que se pariu por escolha própria para fazer. É preciso de uma força descomunal e, no fim das contas, essa sou eu projetando em você toda a força que eu não tive. Bem, talvez eu já tenha agora. Eu fico repetindo na minha cabeça "eu não sei o que isso quer dizer, eu não sei o que isso quer dizer, eu não sei o que isso quer dizer", puta mentira descarada, eu sei exatamente o que isso quer dizer, eu soube da primeira vez que eu te vi anunciando um espetáculo. Uma das coisas que isso quer dizer é: eu invejo você. Não me leve a mal -você mal me conhece!-, essa inveja vem do rio mais profundo da admiração. Me faltou coragem, Felipe. Quando chegou a hora, -e era a hora, eu sabia que era a hora!-, me faltou coragem. Ontem eu saí de lá me lembrando de uma peça que nós fizemos na quinta série, eu não sei você lembra, eu lembro de você, eu lembro de uma luta de espadas e dos tantos ensaios, eu me lembro de passarmos horas e horas coreografando, ensaiando e construindo. Ali eu ainda não sabia, fui descobrir muitos anos depois, no ensino médio, mas ali - lá na quinta série- eu já sabia. Mesmo não sabendo, eu sabia. Por mais que possa parecer, eu não estou ficando maluca, é que na semana passada eu acordei de um sono tão profundo que é como se a vida estivesse ainda tomando os primeiros contornos dos dias depois do útero. Era isso, meu amigo, era isso que eu queria ter feito da minha vida. É isso que, mesmo sendo uma boa profissional, bem sucedida, etc, falta. E eu fiquei todos esses anos me perguntando, me debatendo, procurando, procurando, procurando, "onde está a alma, afinal de contas? qual é o meu propósito? onde está a minha alma?"...estava na minha cara o tempo inteiro. E de repente, tudo faz sentido. É por isso que eu fui quem eu fui, fiz o que fiz e fui onde fui, é por isso que eu sou quem eu sou, é por isso que minha alma fica se debatendo dentro deste corpo meio frágil, meio pouco, é isso e é por isso que ela fica gritando "mais, mais, mais, mais, mais!!!". Um artista é uma das faces da Deusa.
Eu nunca assumi, isso de onde eu venho nem é possível.
Eu quero ser uma artista e eu estou fodida de medo.
"E por mais louco que possa parecer, não me ouça! Pois posso ser apenas mais um tijolo daquele muro que você quer passar, simplesmente passar..."
Eu nunca assumi, isso de onde eu venho nem é possível.
Eu quero ser uma artista e eu estou fodida de medo.
"E por mais louco que possa parecer, não me ouça! Pois posso ser apenas mais um tijolo daquele muro que você quer passar, simplesmente passar..."
segunda-feira, 17 de setembro de 2018
Do que era pra ser de passagem.
Não era pra significar nada, algumas noites mais quentes, nada que quisesse durar. Mas eu quis, que dessa minha natureza rebelde não consigo me livrar. Eu quis que ficasse e que naquela profundidade pudéssemos viver, como Neruda e suas noivas de fundo do mar... Fantasiei que juntos poderíamos mergulhar e não nos afogar, dividindo fôlego, cada um a sua vez subindo à superfície para encher os pulmões. Mentira, nunca pensei que faltaria ar entre nós. Continuo não achando, bem verdade. Talvez você esteja certo e seja pura fantasia, mas o vivido era tão verdade, era a própria o oxigenação, vivemos a mesma coisa? Esse não é um daqueles amores que doem e rasgam por não serem vividos, afinal você me encontrou já tão rasgada... É um daqueles para os quais olhamos com uma espécie de pena, com um olhar meio triste e choroso não por causar dor, mas pela despedida de algo tão belo e tão potente que está fadado à morte prematura, como uma criança que morre sem jamais saber todas as belezas que a vida lhe revelaria. Ai, se a vida tivesse um pingo de dó de mim, nossos caminhos talvez se cruzassem noutra hora, noutro tempo, noutra vida, quem sabe? Onde pudéssemos descobrir se tanta beleza sobrevive... Onde pudéssemos nos descobrir...
terça-feira, 28 de novembro de 2017
Sobre a batalha entre a Rainha de Gelo e Aslam.
Mas é claro que existe essa parte minha que é capaz de destruir, congelar, esvaziar todo sentimento e transformar tudo numa grande espiral de banalidades e rancor. É claro que nessa parte nunca chega o Natal, chega tudo o mais, as festanças de Carnaval, o desvario, a luxúria lancinante, as danças sensuais de São João, mas o Natal, esse não pode chegar. Porque essa parte é avessa a familiaridades, a afeto gratuito, a cuidados muitos, ainda que tortos. Essa parte, polaridade, é à qual eu preciso escolher todos os dias não ceder, essa Rainha vinga e devasta e conquista, conquista para destruir o que houver de belo, é essa Rainha que me protegeu em tantos momentos das feridas duras, rasgadas, da vida. Eu não sabia do Leão. Ou sabia, mas a dor de perdê-lo foi grande demais para saber que ele renasce. Essa outra parte que é luz e construção, e afinidade e afeto, essa parte que faz família em tantas casas outras, essa parte que é amor, a mim, a outros, à vida. Às vezes o Leão se esconde ou morre, e parece não ter fim esse gelo de vida sem Natal, às vezes eu faço com que não tenha fim esse gelo de vida sem Natal. A vida no frio, por mais que permita que eu mostre, a mim e a outros, tanto do meu poder, perdeu o sentido. A revanche, a disputa pelo poder, as artimanhas, os jogos, nunca chega a ceia de Natal, a família, os filhos, o amor que aquece a alma, ficava a morrer de fome, fingindo que gelo e sorvetes eram o bastante. Hoje eu quero a ceia, a família reunida, o amor que perdoa, que aquece, que constrói, hoje eu quero baixar a guarda e deixar que chegue a primavera. Que as flores curem a dor, que mais são as flores que objetos mágicos de cura? Que Aslam guie os meus passos, que permita que haja vida onde eu pisar, não mais gelo e distorção, que a vida aconteça com toda sua potência, com todo o seu Sol. Com todo o meu Sol.
sábado, 24 de dezembro de 2016
Sobre o ponto neutro.
É preciso falar sobre a parede branca. E se fosse amarela, e se não gostasse do tom que escolhi? Ao menos não gostaria do vivido, ao invés de ignorar a tabela de cores possíveis. De que medo fala a parede branca? Do fracasso, da investida ou da traição dos sentidos? De qual deles não fala? Por trás de todo tom de rosa, turquesa ou azul royal há uma superfície branca que alguém resolveu pintar, d'outra forma permaneceria lá, ready for the taking, mas flutuando no tempo e espaço, no stand by, no não é nem deixa de ser. A parede branca é a suspensão da escolha, a desconfiança, o não-dito, não sentido, não vivido, é o suspiro antes do beijo, contenção de despesas emocionais, o punho que não calejei, o risco que não corri nua na praia. A parede branca é o não antes da tentativa, é a auto-anulação, a impossibilidade auto-infligida, a vida passando depressa demais.
Pra ler ouvindo "Jura secreta", na versão da Zélia Duncan.
Pra ler ouvindo "Jura secreta", na versão da Zélia Duncan.
quinta-feira, 7 de julho de 2016
Sobre escolhas e o fim da graduação (vocês estão prontos pra poder?)
Encontrei esse texto revisitando um antigo caderno, escrevi pouco depois da minha formatura(quase dois anos atrás agora) e ele ainda me contempla.
Formei-me. Na realidade, deformei-me. Não, sigo me deformando. Desse período da universidade, levo cicatrizes de formação, alguns bons conflitos encontrados em prol de entrar na forma. Nessa travessia me coloquei em lugares e relações que me enformaram e engessei-me em posições tão dolorosas que sair da forma tem sido um trabalho exaustivo. Por que internalizei tantos maus agouros? Verdade seja dita, esse curso que escolhi parece estar superlotado de almas agourentas (tais como nos filmes de terror em que um espírito monta em suas costas). Almas que, tal como a minha, passaram por esse triturador de sonhos que alguns insistem em pensar serem dados de realidade. Essa não será minha realidade, lamento. Não, não lamento nem por um instante a escolha que fiz. Escolha que fiz quase que intuitivamente, sem de fato saber do que se tratava. Escolha que fiz diariamente, pensando em deixar para trás a cada espinho da mau agouro que rompeu minha pele. Continuei sem saber bem porque continuava (e sabendo exatamente porque), com medo, com raiva, me debatendo na forma. Tenho feito o exercício diário de quebrar a forma em que tentei me colocar, quebro-a de dentro para fora, lentamente, lembrando sempre que esse fracasso não é meu, que esses agouros, que tantas vezes ressoam em mim quando me distraio, não são meus. Só é meu o que quero levar e eu estou cansada de levar esse pessimismo que também não é meu. O que tem de mim é semente em terra fértil, quem vai regar e colher sou eu e eu ando desgostando de ervas daninhas. Vai dar certo, "a melhor hora pra chegar é a hora em que se chega".
Formei-me. Na realidade, deformei-me. Não, sigo me deformando. Desse período da universidade, levo cicatrizes de formação, alguns bons conflitos encontrados em prol de entrar na forma. Nessa travessia me coloquei em lugares e relações que me enformaram e engessei-me em posições tão dolorosas que sair da forma tem sido um trabalho exaustivo. Por que internalizei tantos maus agouros? Verdade seja dita, esse curso que escolhi parece estar superlotado de almas agourentas (tais como nos filmes de terror em que um espírito monta em suas costas). Almas que, tal como a minha, passaram por esse triturador de sonhos que alguns insistem em pensar serem dados de realidade. Essa não será minha realidade, lamento. Não, não lamento nem por um instante a escolha que fiz. Escolha que fiz quase que intuitivamente, sem de fato saber do que se tratava. Escolha que fiz diariamente, pensando em deixar para trás a cada espinho da mau agouro que rompeu minha pele. Continuei sem saber bem porque continuava (e sabendo exatamente porque), com medo, com raiva, me debatendo na forma. Tenho feito o exercício diário de quebrar a forma em que tentei me colocar, quebro-a de dentro para fora, lentamente, lembrando sempre que esse fracasso não é meu, que esses agouros, que tantas vezes ressoam em mim quando me distraio, não são meus. Só é meu o que quero levar e eu estou cansada de levar esse pessimismo que também não é meu. O que tem de mim é semente em terra fértil, quem vai regar e colher sou eu e eu ando desgostando de ervas daninhas. Vai dar certo, "a melhor hora pra chegar é a hora em que se chega".
terça-feira, 24 de novembro de 2015
Dos cabelos brancos e da solidão existencial
Percebo agora o imenso desespero de ser um só no mundo. A
absurda solidão de que ninguém jamais saberá de fato quem sou e quando, onde,
por que, como sou. Que todas as músicas que sei de cór, ninguém saberá do meu
saber de todas elas, ninguém nunca verá as cenas que ficaram gravadas em minha
memória dos filmes, peças, da vida real também. Ninguém vai saber da beleza que
vejo no mundo, ninguém mais verá as flores que vi, que vivi. Ninguém saberá dos
minutos que contei, das lágrimas que sequei no travesseiro, das paixões que
sufoquei por medo ou cansaço, de como imaginei cada uma das páginas dos livros
que li. Ninguém saberá das guerras que travei pra esquecer ou pra seguir em
frente, de cada dificuldade, de toda vitória, ninguém vai retomar minha
respiração ofegante nem cada suspiro de tesão ou desconsolo. Ninguém saberá dos
meus sonhos, dos castelos, dos príncipes, dos labirintos, ninguém saberá das
possibilidades que escolhi não viver, mas que cogitei dia após dia. Estou só, terrivelmente
só, incondicionalmente só. Estamos todos, bem verdade. E por mais lógica e
simples que seja essa percepção, nessa noite ela me golpeia com a precisão de
uma flecha atravessando meu corpo verticalmente e, qual adolescente, me
angustiando ante à falta de sentido para tudo isso. Tanta construção,
confabulação, tanto de sensibilização e ninguém nunca vai saber. Tanto disso
vai morrer em mim, comigo, agarrado às minhas pernas, engolido a custo na minha
rinite ou na minha crise de coluna, ninguém vai saber de minha aflição, de
minha solidão, de meu cansaço. Saber-se-á de meus sorrisos, de meu humor, de
minha voz, sem dúvida lembrarão de minha dança, de meu cabelo, talvez de meus
olhos, mas de mim, que não sou às vistas, quem saberá pra lembrar?
domingo, 25 de outubro de 2015
Sobre a urgência de ser comum.
Me considerei sempre uma daquelas pessoas interessantes, sempre cheia de livros e músicas e reflexões sobre a vida, o universo e tudo mais. Costumava pensar em mim como uma daquelas pessoas sentadas nos bares do Rio Vermelho sempre discutindo sobre alguma coisa inteligente, cheia de opiniões relevantes sobre os mais diversos temas. Acontece que mais do que tudo isso, eu aconteci. E por mais opiniões que tenha sobre os mais diversos temas, pouco me interessa nesse acontecimento que eu sou hoje discutir sobre a mais nova abstração da moda. Explodam-se Caetano, Chico, Bethânia, explodam-se Hitchcock, Goudard e Glauber Rocha, fodam-se García-Marquez e Milan Kundera, Platão, Nietzsche, Freud, Neruda e o caralho a quatro, sequer aceito o contrassenso de estar escrevendo sobre isso. (Fato é que se não escrevo, pra onde vai?) Talvez escreva pra me fazer compreendida, como se simplesmente ser não fosse suficiente, pareço estar justificando essa novidade, como que pedindo permissão para ser o que já sou e o que posso também ser além de tudo. As multidões nos últimos anos têm me mostrado tanto sobre tanto e foi com a euforia que aprendi a viver cada vez mais livre, é com ela que me banqueteio e nela que me embrenho sempre que posso, nela sou milhares de músicas, gírias, danças, acontecimentos outros que não eu só. E a cada dia, sempre mais, quero ser multidão. A multidão com todos os ritmos cabíveis, com todo senso estético, com toda moda e ausência dela, com toda possibilidade de ser que cabe numa multidão, e o que não cabe na multidão? Hoje o que é multidão abarca tudo o que há em mim e nesses tantos outros eus que nos compõem, sem preconceitos, sem exigência de ser outra coisa, porque a multidão é. Simplesmente. E como ela me abraça, eu a abraço de volta.
terça-feira, 4 de agosto de 2015
Trans-fi-gu-ra-ção.
Paixão quando dói, dói é salgada. Tem o gosto do sangue que jorrou da minha boca quando parti o lábio certa vez. Queimadura da caravela que se enrolou na minha perna quando eu era pequena demais pra me proteger. É sal demais em toda comida, desprazer diário de engolir saudade. Mas paixão já não rasga minha pele nem meus pulsos, já não me vira a cabeça feito louca vagando pelas ruas em direção a sua casa, já não me impele à morte. Crescer dói pra melhor às vezes. Saber que se não desvairei até agora é porque o coração aguenta o tranco, e há de aguentar mais, vai saber até quando. Seja como for, na dor ou no amor, melhor é estar inteira. Melhor é a escolha, não o barco descendo descontrolado rio de emoções abaixo. Quem diria que seria eu a perceber?
segunda-feira, 6 de julho de 2015
Do nó.
As lembranças dos menores detalhes de nós dois atravessam o meu dia em espirais insistentes que não me afastam de nada em ti. O toque da minha mão na sua nuca, do seu lábio inferior no meu queixo, o suspiro, a força com que os nossos corpos se envolveram. Não posso ter tudo e o meu vazio hoje é no lugar que você se instalou.
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